Os Muse segundo Andrew Lloyd Weber


Drones é uma estranha salganhada musical que se dá ares de importância.

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Os Muse continuam a sua cruzada. Drones é nova investida, em modo álbum conceptual, num universo distópico onde, desta vez, a Humanidade se vê subjugada pela tecnologia. Em dez canções, com início infeliz e sem final feliz, vagueia-se entre o horror da sociedade totalitária militarizada e o desejo de que no amor resida a salvação. Acontece que Matt Bellamy pode ter George Orwell, Zamiatine ou até O Exterminador Implacável em mente, mas o resultado soa a uma pomposa mas inofensiva ópera hard rock de um Andrew Lloyd Weber com acne que, pecado capital, parece levar-se a sério.

Não há qualquer espaço para a discrição ou para subtilezas. Nem se esperaria, de resto, dado que essa nunca foi a natureza dos Muse. O nono álbum de uma carreira iniciada, em 1999, com Showbiz, é um festim de bateria metrónomo à anos 1980 (o produtor Robert Lange ter-se-á lembrado dos tempos a trabalhar com Foreigner ou Def Leppard), de coros operáticos como definidos em contexto rock pelos Queen (já um clássico dos Muse), de arpejos de guitarras e de sintetizador, de uma voz caída em falsete quando quer mostrar sensibilidade

A primeira impressão não é a melhor: Dead inside soa a encontro contra-natura entre os Sister Of Mercy e o virtuosismo de Van Halen e, apesar de ser música de 2015, parece coberta de pó muito antigo. Em Psycho há stoner rock e terror Marylin Manson, logo seguido de balada para piano e bombo sincopado a marcar o ritmo, que dará lugar ao peso de guitarras graves, gravíssimas, às voltas com sintetizadores e coros que gritam“show me mercy” – e é aqui que a imagem de Andrew Lloyd Weber começa a fazer sentido. Daí até final, teremos direito a mais falsetes e mais solos, mais arpejos e mais coros. Haverá um épico de dez minutos que arranca com Ennio Morricone no horizonte e que acabará qual canção de marinheiros (não alcoolizados). Por essa altura, em The globalist, a penúltima canção, já desistimos.

Drones é uma estranha salganhada musical que se dá ares de importância. Pelo seu tom pomposo e pela sua épica ambição, pelo inadvertido paternalismo da sua denúncia conspirativa, parece a criação de alguém que sofreu uma lavagem cerebral e que nos pede que lutemos com ele contra a lavagem cerebral em curso. O confronto entre o empenho em ser sério e importante e os versos que compõem a narrativa cria mesmo uma sensação algo constrangedora – escolha avulsa de versos, os de Reaper: “You kill by remote control/ and the world is on your side / You’ve got reapers / and hawks, babe / And now I’m radicalised”.

Em nenhum momento, porém, isso é mais evidente que em Revolt. A canção soa à música genérica que acompanha anúncios publicitários com corpos jovens e gente maquilhada de felicidade ou reportagens televisivas sobre casos de vida tristes com final feliz. Ou seja, é solar e levemente melancólica, mas exala esperança, como definido pela agência de marketing. E, enquanto andamos naquele rame-rame, Matt Bellamy está a incitar as massas. “You can grow/You can make this world what you want / You can revolt”. Isso mesmo: You can revolt, repetirá ele, para nosso espanto, sobre aquele pano de fundo musical – dificilmente existirá na história um mais bizarro apelo à revolta popular.

Quando Bellamy dobra a sua voz para criar o efeito coral de música sacra com que o álbum se despede, estamos esgotados. Do amontoado de clichés da narrativa e da balofa seriedade da música que a acompanha. Cai o pano. Para a semana volta o “Cats”, não é?

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