Guns N’ Roses ao vivo no Passeio Marítimo de Algés, numa noite cheia de clássicos


Bem mais de duas horas de música, com os clássicos em sucessão e aquele sentido de espectáculo rock que, anacrónico que seja, era exactamente o todos desejavam. Difícil mesmo foi chegar. Depois, os 57 mil presentes tiveram tudo a que tinham direito.

Foto: Everything is New

Quando, em 2016, começaram a correr rumores de uma possível reunião de Axl Rose, Slash e Duff McKagan, ninguém queria acreditar que tal fosse possível e, já depois do anúncio oficial da reunião dos três músicos no mesmo palco pela primeira vez em mais de duas décadas, a resposta mais comum continuava a ser um muito previsível «OK, tudo bem, vamos lá ver quanto tempo é que isto dura». E por uma boa razão. Dada a natureza explosiva e volátil que sempre caracterizou a banda de Los Angeles, já nem os fãs acérrimos acreditavam que uma experiência deste género funcionasse, e ainda menos que funcionasse durante muito tempo.

Pois bem, exactamente catorze meses depois de um concerto de «aquecimento» no Troubadour, em West Hollywood, a Not In This Lifetime… Tour continua na estrada, chegando agora por fim à Europa depois de, durante o ano passado, ter rendido à banda norte-americana uns colossais 230 milhões de dólares. O que, convenhamos, não é propriamente de estranhar, porque os Guns N’ Roses sempre foram dados ao excesso. Corria o ano de 1987 e lançaram Appetite for Destruction, que acabaria por transformar-se num dos álbum de estreia mais vendidos de sempre nos Estados Unidos; em 1991, com os dois tomos de Use Your Illusion, assinaram um dos registos mais ambiciosos da história do rock e, com a formação já desmembrada, o bom do Axl tomou as rédeas da operação e tornou reais os seus sonhos mais megalómanos com Chinese Democracy, um disco que custou 13 milhões de dólares a fazer. Contra as piores expectativas, era mais ou menos previsível que esta reunião do vocalista com o guitarrista Slash e o baixista Duff, o sonho molhado de qualquer seguidor do grupo que se preze, estivesse destinada a ser um enorme sucesso.

Como prometido, o impensável acabou por acontecer e à hora marcada, revelando desde bem cedo uma ética de trabalho muito diferente daquela que, na MEO Arena, fez com que o público tivesse de aguentar um atraso de 90 minutos para ver por fim a banda em palco. Uns escassos 35 minutos depois de Mark Lanegan ter saído de cena sob uma amena salva de palmas – antes do ícone de Seattle ter atuado, já Tyler Bryant & The Shakedown tinha tido a ingrata tarefa de entreter as hostes com o seu rock bluesy –, ainda com o sol a brilhar, os Guns N’ Roses entraram em palco ao som de «It’s So Easy». Sejam, portanto, bem-vindos à Not In This Lifetime… Tour, a improvável digressão em que egos gigantescos permanecem sob controle e os temperamentos mais intempestivos foram, por fim, domesticados.

Pese a ausência de Izzy Stradlin e Steven Adler, os dois músicos da formação “clássica” não envolvidos nestes concertos, à medida que a actuação foi avançando e os temas se foram sucedendo, começou a pairar no ar a sensação de que até os fãs de idade um pouco mais avançada, todos os que poderiam estar ainda traumatizados pelo enorme fiasco do Estádio José de Alvalade em 1992 ou pela prestação muito desequilibrada no Rock In Rio mais de uma década depois, estavam por fim a ver a sua fé no grupo restaurada, com o sexteto – que fica agora completo com Dizzy Reed e Melissa Reese nos teclados, Richard Fortus na guitarra e Frank Ferrer na bateria – a mergulhar num desfilar de êxitos para ninguém pôr defeito, com o alinhamento a apoiar-se em Appetite For Destruction e os dois volumes de Use Your Illusion.

«Mr. Brownstone», «Welcome to the Jungle», «Sweet Child O’ Mine», «Out Ta Get Me» e «Nightrain» foram, de forma expectável, pontos bem altos da primeira parte do espetáculo. Não foram, no entanto, apenas os temas do álbum de estreia a provocar furor entre os presentes, com «Live and Let Die» (dos Wings), «Civil War», «November Rain», com Axl ao piano, ou «Knockin’ On Heaven’s Door» (de Bob Dylan) a arrancarem reacções efusivas a uma plateia rendida aos encantos destes veteranos. Em Lisboa, à semelhança do que se tem passado em todas as cidades por onde têm passado, os Guns N’ Roses foram recebidos por um impressionante mar de gente, com o Passeio Marítimo de Algés a registar lotação esgotada semanas antes do espectáculo.

Importa aqui recordar que a última vez que actuou em Lisboa, em Outubro de 2010, esta banda era só Axl e um punhado de músicos contratados e, depois de décadas de desentendimentos com os seus ex-companheiros, a perspectiva de ver a formação «clássica» reunida no mesmo palco era quase tão remota como dar de caras com o Slash sem a sua cartola. Nesta noite de sexta-feira ficou provado que o tempo e o dinheiro conseguem curar todos os males e, apesar de alguns problemas comuns a estes espectáculos de dimensões gigantescas – nomeadamente, a enorme distância do palco e o som ocasionalmente sofrível à custa de tanto vento forte –, o trio Axl, Slash e Duff mostrou por que é que os Guns N’ Roses continuam a estar entre as bandas melhor sucedidas e mais veneradas da história do rock. Não é, por isso, estranho que, do início ao fim, o concerto tenha reunido todos os clichés de um bom concerto do género, da pirotecnia aos cenários elaborados de fundo de palco, passando pelas explosões de som e pelos incontáveis solos de guitarra, com Slash a ocupar, uma, outra, outra, outra e outra vez, a frente do palco.

Se, à semelhança do que se passou quando esteve em Portugal pela última vez, a cantar com os AC/DC neste mesmo recinto, muitas das atenções dos presentes recaíam sobre o controverso Axl, ver o icónico guitarrista voltar às suas raízes acabou por ser um dos pontos mais altos da noite – a reacção ao seu solo, assente em «Speak Softly Love» (da banda-sonora d’O Padrinho), provou-o. Como esperado, Slash manteve-se escondido atrás da sua melena de caracóis e tão misterioso como sempre, deixando os solos e riffs falarem por si, enquanto oferecia todas as poses clássicas para os ecrãs. Foi, sobretudo, interessante vê-lo a tocar os temas de Chinese Democracy, com o músico a revelar-se excepcionalmente inspirado nas rendições do tema-título e de «Better», que continua a afirmar-se como uma das melhores canções do álbum de 2008.

Por seu lado, a inclusão de «This I Love», sendo que o alinhamento incluiu as igualmente longas (mas mais inspiradas) «Estranged» e «Coma», revelou-se perfeitamente dispensável, mas a interpretação de algumas canções mais obscuras, como foi o caso de «Double Talkin’ Jive», assim como de várias versões – entre elas «Black Hole Sun» dos Soundgarden e «Wish You Were Here», dos Pink Floyd, com direito a duelo de solos entre Slash e Fortus – manteve o público bem entretido durante as quase três horas que estiveram em palco.

Fortus e companhia, que é como quem diz a backing band dos elementos originais, por seu lado, mostraram-se em topo de forma, com destaque para Frank Ferrer, que manteve uma batida coesa e mostrou um óptimo entrosamento com Duff, sem dúvida o músico que melhor soube envelhecer da formação que gravou Appetite For Destruction. O baixista subiu ao palco com uma alegria quase juvenil, manteve a boa disposição durante todo o concerto e teve tempo para brilhar em «Rocket Queen», «You Could Be Mine» e na versão de «New Rose», dos The Damned. Além disso, partilhou com Melissa Reese muitas das harmonias vocais que servem de base para Rose se apoiar.

O vocalista, à semelhança do que tinha feito a 7 de Maio do ano passado, voltou a mostrar que continua a ser um showman. Agora liberto do gesso que o manteve sentado durante a actuação com os AC/DC, Axl trocou de indumentária diversas vezes e pode circular, soprar, rodopiar, dançar, correr e bufar pela gigantesca estrutura montada em Algés. Aos 55 anos, é inegável que o seu registo vocal já nem sempre é o que era, os gritos agudos que sempre foram a sua marca continuam inalterados, mas a falta de fôlego e a dificuldade em atingir alguns registos também se fizeram notar. Uma coisa é certa, contudo: o cantor ainda sabe como controlar uma audiência e, mais que nunca, parece, literalmente, dar tudo o que tem para dar aos seus fãs.

E sim, vendo a banda em palco torna-se óbvio o sex appeal de Axl e Slash, assim como a química entre os dois, se foi desvanecendo ao longo dos anos, mas tendo em conta a natureza volátil da relação entre ambos, isso também não é de estranhar. Menos unidos e mais sincronizados, os músicos estavam ali para trabalhar e foi isso que fizeram – o que, verdade seja dita, não é mau de todo; só o facto de terem conseguido fazer estes concertos acontecerem já foi, por si só, um belo de um milagre.

O entusiasmo do público quando a banda voltou a palco para o encore, composto por uma versão acústica de «Patience» e «Whole Lotta Rosie», dos AC/DC, era indesmentível e quando os músicos atacaram, por fim, «Paradise City», uma das suas canções mais icónicas, com a voz estridente do Axl a trepar pelos riffs do Slash, deu-se um click muito especial… Com uma chuva de confettis no ar e o fogo de artifício a explodir no céu, o mais certo é que este tenha sido um daqueles momentos que muitos dos presentes nunca vão esquecer.

SETLIST

It’s So Easy
Mr. Brownstone
Chinese Democracy
Welcome to the Jungle
Double Talkin’ Jive
Better
Estranged
Live and Let Die
Rocket Queen
You Could Be Mine
New Rose
This I Love
Civil War
Black Hole Sun
Coma
Sweet Child O’ Mine
Out Ta Get Me
November Rain
Knockin’ on Heaven’s Door
Nightrain

Patience
Whole Lotta Rosie
Paradise City

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